Em 1º de abril de 1933, a Alemanha nazista fez o que hoje se reconhece como ensaio geral. Com antecedência, o partido anunciou o boicote às lojas, consultórios e escritórios de judeus. Homens da SA ficaram nas portas, estrelas de Davi foram pintadas nas vitrines, e cartazes diziam à população de quem não comprar. O boicote oficial durou um dia. A engrenagem que ele testou, não: uma semana depois, vieram as demissões no serviço público e, em 1935, as Leis de Nuremberg.
A lição que os historiadores tiram é que a perseguição raramente começa pela violência. Começa pela lista.
O que se repete
Em 2022, depois da eleição, listas organizadas pela ala mais extremista de apoiadores de Bolsonaro circularam em cidades de ao menos 13 estados e no Distrito Federal, segundo levantamento da Folha de S.Paulo. O padrão era o mesmo: um nome, um endereço e uma acusação de pertencimento político.
Em Ijuí (RS), a Apae da cidade apareceu numa lista de cerca de 50 empresas e entidades a boicotar, e sua presidente disse não saber por quê. A associação que atende pessoas com deficiência foi marcada, e o critério talvez fosse só a fala de algum funcionário. No Recife, circulou uma lista de médicos que apoiaram Lula, e o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco a classificou como constrangedora, intimidatória e discriminatória.
Em Casca (RS), apoiadores de Bolsonaro passaram a estimular comerciantes que supostamente tinham votado em Lula a identificar seus estabelecimentos com estrelas, além de pedir que a população comprasse apenas onde se “pensa como você”. O Ministério Público abriu apuração sobre o selo. A mecânica é a mesma de 1933: marcar o estabelecimento na fachada para que a vizinhança saiba de quem se afastar.
Em Boa Vista (RR), mensagens no WhatsApp listavam empresas, jornalistas e políticos que apoiaram Lula, e a última relação a que a Folha teve acesso tinha ao menos 84 nomes. A lista misturava empresário, jornalista e político, ou seja, qualquer pessoa que tivesse tomado partido do lado errado.
Do Sul ao Centro-Oeste
Em Mato Grosso do Sul, a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande disse não saber a origem de uma lista de boicote que circulava na cidade e repudiou qualquer retaliação por motivação política. Um empresário ouvido pelo Correio do Estado contou que amigos estavam na lista sem nem falar de política. É esse o efeito prático desses cadastros: o critério é difuso, a inclusão é arbitrária, e o medo faz o resto.
Já em 2026, o Midiamax registrou uma loja em Mato Grosso do Sul com placa proibindo a entrada de petistas, inclusive clientes. O ator Paulo Betti protestou diante dela. A diferença para 1933 é pequena em termos de gesto: um estabelecimento que declara, na porta, quem não é bem-vindo por sua filiação política.
Em Mato Grosso, no município de Cáceres, Sinop, Sorriso e tantos outros , ja se falam em lista de “petistas e esquerdistas” que terão seus estabelecimentos prejudicados por conta do desse tipo de polarização.
Por que o perigo não está no boicote em si
O alerta de quem faz a comparação não é que o Brasil esteja repetindo a Alemanha. É que a história mostra a ordem das coisas. Primeiro o adversário vira inimigo moral. Depois é identificado publicamente. Em seguida, quem convive com ele é pressionado a escolher um lado, e a economia passa a servir de instrumento de disciplina. Ninguém precisa de lei para isso: basta o constrangimento, o medo de perder clientela e a vizinhança que vigia. Quando o Estado ou um partido no poder resolve aproveitar essa estrutura, ela já está pronta.
Por isso a Apae de Ijuí e o médico do Recife importam mais que os grandes nomes. Mostram que o sistema não distingue quem fez política de quem apenas existe ao lado de alguém que fez.
O que dizem os que contestam
Há objeções que o texto não pode omitir. Em 1933, o boicote foi organizado por um partido que já controlava o governo, e as listas brasileiras partem de grupos privados, enfrentando um Ministério Público, uma imprensa e uma Justiça que funcionam. Os judeus foram perseguidos pelo que eram, e os comerciantes brasileiros foram expostos por uma suposta escolha política.



















