Em um contundente paradoxo, Mato Grosso, estado que é um dos maiores celeiros agrícolas do Brasil e que mais cresceu economicamente no último ano, ainda convive com índices de fome acima do patamar estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). A informação foi revelada durante o evento Cibus Veritas – Comida de Verdade para Todos, promovido pelo Ministério Público estadual nesta sexta-feira (19).
A professora Patrícia Nogueira, coordenadora do curso de Nutrição da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), destacou que, enquanto o Brasil celebrou sair do Mapa da Fome da ONU este mês, o estado ainda apresenta um índice de insegurança alimentar grave de 3,9% de sua população. O percentual ultrapassa o limite de 2,5% estabelecido pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura).
“Se dependesse apenas do estado, o Brasil não teria saído do Mapa da Fome”, afirmou a professora durante sua palestra. Ela apontou que a fome no estado tem classe, gênero e raça, estando concentrada em populações rurais, famílias de baixa renda, desempregados, mulheres e pessoas pretas e pardas.
O Paradoxo da Produção vs. o Prato Vazio
As especialistas Patrícia Nogueira e Márcia Montanari Corrêa, doutora em Saúde Coletiva pela UFMT, explicaram a contradição: o modelo de produção do estado é voltado quase que integralmente para a exportação e para as commodities, e não para alimentar sua própria população.
A professora Márcia Montanari alertou que cerca de 70% da área agriculturável de Mato Grosso é destinada a produtos como soja, milho e algodão. Em municípios como Sapezal, Campo Novo do Parecis e Sorriso, esse índice chega a 98%. “A terra, a água e os recursos naturais de Mato Grosso são usados para produzir bens que abastecem mercados distantes. Itens básicos como arroz, feijão e hortaliças, que vão à mesa do mato-grossense, muitas vezes vêm de outros estados”, disse.
“Temos recordes anuais de produção, no entanto, isso não é suficiente para eliminar a fome. O discurso de que o Brasil alimenta o mundo precisa ser relativizado. É necessário olhar com mais critério para esse modelo”, defendeu Márcia.
Fome e Obesidade: Duas Faces da Má Alimentação
O painel também abordou o outro lado da crise nutricional: a obesidade. As professoras destacaram o paradoxo de um estado onde parte da população passa fome enquanto outra consome alimentos ultraprocessados em excesso, levando a problemas de saúde.
Patrícia Nogueira relacionou o alto consumo desses produtos – facilitado pelo fácil acesso e pela publicidade – a dietas desequilibradas, com excesso de gorduras e baixo valor nutricional. “A gente só vai garantir a soberania alimentar e nutricional quando o país tiver condições de oferecer alimentos para toda a população, e isso é uma decisão política, social e econômica”, finalizou a coordenadora.
A solução apontada pelas especialistas passa por repensar o modelo de produção, fortalecer a agricultura familiar e a agroecologia, e entender que consumir é um ato político. A educação e políticas intersetoriais foram apontadas como caminhos essenciais para resolver o paradoxo da fome no celeiro do Brasil.
*Com informações assessoria de imprensa do MPMT


















