Documentos obtidos pelo VGN mostram que a empresa LGI Médicos Ltda., investigada na Operação Espelho, segue executando um contrato milionário com a Prefeitura de Tangará da Serra sob fiscalização de um médico que também é sócio de outra empresa contratada pela mesma Secretaria Municipal de Saúde. A documentação revela um núcleo empresarial interligado por contratos públicos e relações societárias que suscita questionamentos sobre governança e eventual conflito de interesses.
A Portaria nº 14/2026 da Secretaria Municipal de Saúde designou o médico Eli Ambrósio do Nascimento, matrícula 4530, como fiscal suplente do contrato firmado com a LGI Médicos Ltda., responsável pelos serviços de anestesiologia, cirurgia geral, ortopedia e ginecologia e obstetrícia no Hospital Municipal Arlete Daisy Cichetti de Brito. Após reajustes, o contrato alcançou R$ 16.449.587,40 por ano.
Documentos da Junta Comercial mostram, porém, que Eli Ambrósio também integra o quadro societário da Sociedade Médica Vida e Saúde Ltda., empresa que administra o Hospital das Clínicas de Tangará da Serra e mantém com a Prefeitura o Contrato nº 75/2024. Segundo o 8º Termo Aditivo, o valor global do ajuste passou para R$ 142.632.025,00.
No mesmo quadro societário figura o anestesiologista Bruno Paim de Oliveira Alves, administrador da empresa e responsável pelo Laboratório Santo Antônio Clínico Ltda., instalado dentro do Hospital das Clínicas.
O Contrato nº 150/ADM/2025 revela que a Prefeitura de Tangará da Serra formalizou, em 1º de outubro de 2025, um acordo de R$ 5,52 milhões com a Sociedade Médica Vida & Saúde Ltda., representada pelo sócio Bruno Paim de Oliveira Alves, para a prestação de serviços hospitalares de internação clínica adulta e pediátrica destinados a pacientes do SUS.
O documento prevê vigência inicial de 12 meses, com possibilidade de prorrogação, e estabelece o fornecimento estimado de 310 diárias mensais de leitos clínicos para adultos e 150 diárias mensais de leitos pediátricos, ambas ao custo unitário de R$ 1 mil por diária, totalizando R$ 460 mil por mês.
Além do expressivo volume financeiro, o contrato integra a mesma rede de relações empresariais investigadas pela reportagem, já que a Sociedade Médica Vida & Saúde reúne em seu quadro societário profissionais que também exercem funções estratégicas na gestão da saúde pública municipal, o que amplia a relevância da análise sobre governança, fiscalização e eventuais conflitos de interesse envolvendo contratos da Secretaria Municipal de Saúde.
Laboratório investigado pelo Ministério Público
O Laboratório Santo Antônio é alvo de investigação do Ministério Público após denúncias de supostas irregularidades na realização de exames. Relatório técnico obtido pela reportagem concluiu que diversos exames contratados não eram efetivamente realizados pelo laboratório e classificou a unidade como “insatisfatória”, considerando-a inapta ao funcionamento.
Além da atuação dentro do Hospital das Clínicas, a empresa mantinha contrato próprio com a Prefeitura por meio do Credenciamento nº 001/2025, decorrente do Processo Administrativo nº 10.505/2024 e do Processo Licitatório nº 002/2025. Embora o credenciamento não informe o valor global contratado, ele confirma que o laboratório prestava serviços diretamente ao município.
A existência desse contrato reforça outra apuração publicada pelo VGN, segundo a qual pacientes atendidos no Hospital Municipal eram encaminhados ao Hospital das Clínicas para internações e realização de exames.
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Rede de contratos
Os documentos mostram que três contratos distintos da saúde municipal convergem para o mesmo núcleo empresarial: o contrato da LGI Médicos, fiscalizado por Eli Ambrósio; o contrato da Sociedade Médica Vida e Saúde, da qual Eli é sócio; e o credenciamento do Laboratório Santo Antônio, administrado por Bruno Paim, também sócio da mesma empresa.
Possível conflito de interesses
A documentação não demonstra, por si só, qualquer ilegalidade na celebração dos contratos. O ponto que desperta questionamentos é a compatibilidade entre a função pública exercida por Eli Ambrósio na fiscalização de um contrato de R$ 16,4 milhões e sua participação societária em outra empresa privada que também mantém contrato milionário com a mesma Secretaria Municipal de Saúde.
O médico também responde a uma Ação Civil Pública por improbidade administrativa proposta pelo Ministério Público de Mato Grosso. A ação aponta suposta incompatibilidade de jornadas, acúmulo irregular de cargos e recebimento de remuneração por carga horária considerada, segundo a promotoria, impossível de ser cumprida.
Contrato da LGI, a renovação e o novo cenário da Operação Espelho
A Prefeitura de Tangará da Serra prorrogou, em 27 de fevereiro de 2026, por mais doze meses, o contrato da LGI Médicos, mantendo sua vigência até março de 2027. A empresa tem como sócio-administrador o médico Luiz Gustavo Castilho Ivoglo, denunciado pelo Ministério Público na Operação Espelho por supostos crimes de organização criminosa, fraude à licitação e peculato.
À época, havia decisão da 7ª Vara Criminal de Cuiabá que proibia Estado e municípios de contratar ou manter contratos com empresas investigadas na operação, entre elas a própria LGI Médicos. Nos documentos analisados pela reportagem não há referência a essa decisão judicial; a prorrogação foi fundamentada em memorando da Secretaria Municipal de Saúde e parecer da Procuradoria do Município.
Desde então, o quadro processual da Operação Espelho mudou. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) reconheceu a incompetência da Justiça Estadual para julgar o caso, sob o argumento de que parte dos recursos envolvidos nos contratos investigados tinha origem federal, e anulou os atos praticados naquela fase, remetendo a apuração à Justiça Federal.
Procurada pela reportagem, a LGI Médicos afirmou que, no âmbito da Operação Espelho, a Justiça Federal determinou o arquivamento da ação penal. Segundo apurou o VGN, esse arquivamento decorreu justamente do reconhecimento da nulidade dos atos praticados pela Justiça Estadual em razão da incompetência do juízo, e a própria decisão que arquivou o processo autorizou o Ministério Público Federal a utilizar provas de fonte independente para eventual nova denúncia. Ou seja, o arquivamento não representa absolvição de mérito nem impede novas medidas processuais contra os investigados.
Pulverização societária
A apuração também identificou que, entre 2023 e 2025, a LGI Médicos admitiu 16 novos sócios, mantendo inalterado o capital social registrado de R$ 900 mil. Relatórios técnicos apontam que a empresa recebeu aproximadamente R$ 44 milhões da Secretaria de Estado de Saúde entre 2019 e 2022 e atualmente mantém contrato anual superior a R$ 16,4 milhões com Tangará da Serra.
Segundo documentos da investigação da Operação Espelho, essa alteração societária passou a ser analisada pelos órgãos de controle para verificar se poderia ter relação com eventual proteção patrimonial diante de futuros bloqueios judiciais.
Outro lado
Secretaria Municipal de Saúde
Procurada pelo VGN, a secretária municipal de Saúde, Ângela Xavier Belizário, contestou as informações da reportagem. Ela afirmou que o valor de R$ 142,6 milhões atribuído ao Contrato nº 75/2024 estaria incorreto. A reportagem esclarece que esse montante consta expressamente no 8º Termo Aditivo do contrato.
A secretária também negou que Eli Ambrósio exerça ou tenha exercido a função de fiscal de contratos. Entretanto, a Portaria nº 14/2026, anexada ao Termo Aditivo nº 34/2026 do contrato da LGI Médicos, designa o médico como fiscal suplente.
Sobre o Laboratório Santo Antônio, Ângela afirmou que a empresa não possui contrato com o município e disse ter sido responsável pela denúncia que levou ao seu fechamento. A reportagem localizou, contudo, o Credenciamento nº 001/2025, firmado entre a Prefeitura e o laboratório, documento no qual a própria secretária figura como interveniente.
Questionada sobre a suspeita de repasse de procedimento sigiloso do Ministério Público à empresa investigada, a secretária negou qualquer participação. Segundo ela, o envio teria sido realizado por um servidor posteriormente exonerado e o procedimento estaria arquivado. A reportagem informou possuir elementos que indicam que a investigação continua em andamento.
A entrevista foi encerrada antes do esclarecimento das divergências. Além disso, após o VGN solicitar posicionamento oficial da Secretaria Municipal de Saúde, os contratos e demais documentos relacionados às empresas citadas nesta reportagem deixaram de estar disponíveis para consulta no Portal da Transparência da Prefeitura.
Bruno Paim de Oliveira Alves
Procurado pela reportagem, Bruno Paim de Oliveira Alves confirmou atuar como diretor administrativo da Sociedade Médica Vida e Saúde Ltda., mas afirmou que nunca foi, pessoalmente (CPF), sócio do Laboratório Santo Antônio Clínico Ltda., hoje fechado. Segundo ele, a participação societária no laboratório seria da própria Sociedade Médica Vida e Saúde, pessoa jurídica que representa como diretor administrativo, e não dele individualmente.
Documentos da Junta Comercial consultados pela reportagem, no entanto, apontam Bruno Paim como administrador do Laboratório Santo Antônio. O médico afirmou ainda não ter conhecimento prévio sobre as relações empresariais e contratuais mencionadas pela reportagem. Segundo ele, assim que a vigilância sanitária constatou pendências e determinou a interdição da unidade, optou por se desligar do laboratório, mesmo depois de as pendências terem sido sanadas e a unidade voltar a estar apta a funcionar.
LGI Médicos
Procurada pela reportagem, a LGI Médicos Ltda. afirmou que não possui qualquer ingerência sobre a escolha de fiscais de contratos pela Prefeitura de Tangará da Serra e sustentou que não há impedimento jurídico para a manutenção ou celebração de contratos com a Administração Pública. A empresa também contestou a existência de restrições decorrentes da Operação Espelho.
Em nota, a LGI declarou desconhecer eventual vínculo societário entre servidores públicos responsáveis pela fiscalização contratual e outras empresas prestadoras de serviços ao município. Segundo a empresa, a nomeação de fiscais, gestores de contratos e demais agentes públicos é atribuição exclusiva da Administração Municipal, sem qualquer participação da contratada.
A empresa ressaltou ainda que responde apenas pelo cumprimento de suas obrigações contratuais, afirmando não ter responsabilidade sobre atos, condutas ou relações envolvendo servidores públicos, fiscais de contratos ou outras empresas contratadas pelo município.
Sobre a Operação Espelho, a LGI afirmou que não possui qualquer impedimento legal para contratar com o poder público nem está sujeita a sanções que impeçam a celebração, manutenção ou prorrogação de contratos administrativos. A empresa acrescentou que o inquérito civil instaurado pelo Ministério Público para apurar as renovações contratuais com o município foi arquivado por ausência de justa causa para o ajuizamento de ação judicial.
Também informou que, no âmbito da Operação Espelho, a Justiça Federal determinou o arquivamento da ação penal e reconheceu a nulidade dos atos decisórios anteriormente praticados pela Justiça Estadual, sustentando que, atualmente, inexiste qualquer restrição judicial que a impeça de contratar ou manter contratos com a Administração Pública. Como consta na seção anterior, a reportagem apurou que esse arquivamento decorreu da nulidade por incompetência de juízo, e não de decisão de mérito, e que o Ministério Público Federal foi autorizado a usar provas de fonte independente para eventual nova denúncia.
Por fim, a LGI afirmou que atua em conformidade com a legislação vigente, reiterou seu compromisso com o cumprimento das obrigações assumidas nos contratos públicos e informou que prestará eventuais esclarecimentos adicionais às autoridades competentes sempre que formalmente solicitada.
O VGNpermanece à disposição para publicar manifestações e esclarecimentos das partes citadas que ainda não se pronunciaram. A reportagem foi produzida com base em documentos obtidos em fontes oficiais e de acesso público.






















