Às vésperas da aplicação do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), marcado para outubro, a rede estadual de ensino de Mato Grosso vive um clima de emergência pedagógica. O que o governo batizou de “Movimento Saeb” – uma força-tarefa com aulas aos sábados, plataformas digitais, apostilas e chromebooks – é classificado por educadores como uma tentativa desesperada de fabricar, em 90 dias, a ilusão de uma “multiplicação milagrosa” da aprendizagem após sete anos de gestão marcados por parcas políticas estruturantes.
A avaliação, que mede o desempenho de alunos do 2º, 5º e 9º anos do Fundamental e do 3º ano do Médio, serve de termômetro para os investimentos do governo Mauro Mendes (UNIÃO) na educação. Para o Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público (Sintep-MT), no entanto, a estratégia é menos sobre educar e mais sobre performar.
“É um treinamento mecânico, um intensivo que ignora completamente as realidades distintas de cada escola e de cada aluno”, desabafa um professor da regional de Alta Floresta, que preferiu não se identificar. “Chega uma enxurrada de material, muito conteúdo, que sobrecarrega a todos – professores e alunos. Não é ensino, é linha de montagem para produzir números”, critica.
A tática de “encurtar etapas”, como define o Sintep, inclui desde lives motivacionais até a exclusão de turmas do Programa de Reforço da Aprendizagem (PRA) da avaliação – manobra que, segundo o sindicato, visa artificialmente inflar a média geral ao retirar do exame justamente os estudantes com maior dificuldade. Outra prática criticada é a política de transferências compulsórias, que dilui os índices de evasão escolar entre unidades, mascarando o problema real.
“A estratégia inicial, com jogos digitais para motivar, tornou-se repetitiva e cansativa. É mais do mesmo, uma pressão que inviabiliza qualquer construção de aprendizagem significativa”, afirma Gilmar Soares, secretário de Articulação Sindical do Sintep-MT. “A responsabilidade pelo sucesso ou fracasso é transferida integralmente para os professores, eximindo o poder público de sua obrigação de seven anos.”
O sindicato alerta para um ponto crucial: diferentemente das taxas de aprovação e frequência – alvo de supostas manipulações em anos anteriores, conforme denúncias –, o Saeb é a etapa do Ideb com menor margem para maquiagem. O exame, aplicado por agentes externos, pode expor com crueza o real nível de aprendizagem dos estudantes, revelando o abismo entre a propaganda oficial e a sala de aula real.
Enquanto o governo mira na meta do Ideb, professores e alunos são submetidos a uma maratona exaustiva. O que está em jogo em outubro não são apenas notas, mas a revelação de quanto um sistema educacional pode ser distorcido em nome de um resultado político. (com informações SINTEP-MT)



















