FÉ E COSTUME

Entre Judas e palmadas: o lado pouco falado do Sábado de Aleluia

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Após o silêncio e a reflexão da Sexta-feira Santa, o chamado Sábado de Aleluia ocupa um lugar singular no calendário cristão. É um dia de transição: marca o luto pela morte de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, a expectativa pela celebração da ressurreição no Domingo de Páscoa.

Na tradição da Igreja Católica, o Sábado de Aleluia é caracterizado pela Vigília Pascal, considerada uma das celebrações mais importantes do ano litúrgico. É durante a noite que os fiéis se reúnem para simbolizar a passagem das trevas para a luz, com a bênção do fogo novo e o acendimento do círio pascal — representando a vitória da vida sobre a morte.

Mas, para além do significado religioso, o dia também é marcado por manifestações culturais populares, muitas delas herdadas de gerações passadas. Uma das mais conhecidas no Brasil é a chamada “malhação de Judas”, prática em que bonecos representando Judas Iscariotes são queimados ou espancados simbolicamente, em referência ao apóstolo que teria traído Jesus Cristo.

Além desse costume, há relatos de outra prática menos conhecida — e hoje bastante questionada —: a ideia de que o Sábado de Aleluia seria um “dia permitido” para dar palmadas em crianças consideradas desobedientes. Em algumas regiões, especialmente no interior, esse comportamento era transmitido como uma espécie de “correção simbólica”, muitas vezes associado a crenças populares de purificação ou disciplina.

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Especialistas em cultura popular apontam que essa tradição não tem base religiosa oficial e tampouco respaldo em ensinamentos cristãos. Pelo contrário, trata-se de um costume construído socialmente ao longo do tempo, influenciado por valores antigos de educação mais rígida e pela naturalização de práticas punitivas.

Hoje, a visão sobre esse tipo de comportamento mudou significativamente. Com o avanço de legislações de proteção à infância e maior conscientização social, práticas de punição física são amplamente condenadas. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece o direito à integridade física e psicológica de crianças e adolescentes, reforçando que métodos educativos devem ser baseados no diálogo e no respeito.

Para historiadores, o Sábado de Aleluia continua sendo um exemplo de como religião e cultura popular se misturam ao longo do tempo. Enquanto a fé cristã mantém seu significado central voltado à esperança e renovação, algumas tradições antigas vão sendo ressignificadas — ou deixadas para trás — conforme a sociedade evolui.

Entre o sagrado e o cultural, o dia segue sendo vivido de formas diversas pelo Brasil, mas cada vez mais sob o olhar crítico de uma sociedade que busca preservar tradições sem abrir mão dos direitos e da dignidade.

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