No início dos anos 1990, enquanto o Brasil ainda digeria as turbulências da redemocratização, uma operação silenciosa e audaciosa tomava forma nas profundezas do Vale do Xingu, no Pará. Um empreiteiro milionário, munido de conexões políticas e documentos forjados, colocava o nome em uma área de 4,7 milhões de hectares de terra amazônica — uma extensão equivalente ao território inteiro da Holanda. Era grilagem em escala industrial.
O esquema poderia ter passado despercebido, como tantos outros na história fundiária brasileira. Não passou. Durante mais de uma década, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, através do seu Jornal Pessoal, publicação independente editada em Belém, transformou o caso numa das coberturas investigativas mais persistentes da imprensa paraense. Edição após edição, Pinto documentou irregularidades, identificou personagens e manteve vivo um escândalo que o poder preferia ver enterrado.
A pressão surtiu efeito. A Polícia Federal abriu investigações. O Ministério Público se debruçou sobre os registros cartoriais. E em novembro de 2011, a Justiça deu o golpe final no esquema: os registros imobiliários fraudulentos foram cancelados e as terras, determinadas a retornar ao patrimônio público. Nas palavras dos próprios procuradores envolvidos no caso, as denúncias jornalísticas foram peça essencial para que a investigação chegasse aonde chegou.
O caso do Vale do Xingu não é apenas uma história sobre grilagem — crime endêmico na Amazônia. É também uma história sobre o que o jornalismo pode fazer quando decide não desistir. Em um país onde investigações fundiárias costumam se perder em gavetas e onde repórteres que cobrem conflitos por terra frequentemente pagam com a própria vida, a trajetória de Lúcio Flávio Pinto representa uma anomalia corajosa.
Vinte anos após o início do esquema, a terra voltou. O registro foi cancelado. E ficou registrado, também, que sem a imprensa independente, talvez nada disso tivesse acontecido.
com informações revista Piaui





















