Durante a cerimônia de assinatura da ordem de serviço para a construção do tão aguardado Hospital Regional de Pontes e Lacerda, nesta terça-feira (17), o parlamentar, em um cochicho nada discreto com o governador Mauro Mendes (União Brasil), entregou o que a população já desconfia, mas raramente ouve em alto e bom som. Ao ser questionado sobre as vencedoras da licitação de quase duzentos milhões de reais, Moretto não titubeou: “Duas, a Agrimat e uma a minha”. A comemoração, selada com um satisfeito “Tá autorizado!”, foi a cereja no bolo do constrangimento.
O vídeo, claro, viralizou mais rápido que promessa de campanha. A cena, que beira o cômico se não fosse trágica, expõe as entranhas de uma prática que insiste em assombrar a administração pública: o conflito de interesses. A legislação brasileira, em um esforço para manter a decência, proíbe que parlamentares firmem contratos com o poder público. É o que diz a Constituição, mas, pelo visto, a empolgação falou mais alto que a Carta Magna.
Enquanto o deputado celebrava sua “conquista histórica”, como ele mesmo descreveu o anúncio do hospital, a população assistia, entre o choque e a ironia, a uma confissão de que a festa da saúde pública pode ser, para alguns, um excelente negócio particular. A Agrimat Engenharia e Empreendimentos Ltda., uma das vencedoras, tem em seu quadro societário a Agrimat Investimentos e Participações S.A. Embora o nome do deputado não apareça diretamente no quadro de sócios, a sua declaração espontânea levanta um véu de suspeitas que não pode ser ignorado.
Não é a primeira vez que o nome de Moretto é associado a controvérsias. Em 2019, uma de suas empresas foi alvo da Operação Trapaça da Polícia Federal, que investigava fraudes em licitações. Coincidência ou padrão?
No fim das contas, o microfone indiscreto de Pontes e Lacerda prestou um serviço de utilidade pública. Ele revelou, sem filtros, o que muitas vezes se esconde nos corredores do poder. Resta saber se, além de viralizar, a confissão no automático do deputado Valmir Moretto resultará em alguma consequência real. Ou se, como de costume, tudo acabará em pizza, ou melhor, em um hospital construído sob a sombra da dúvida.

















