Em recente fala pública, o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, criticou o salário de um enfermeiro que recebe R$ 28 mil, insinuando que o valor seria abusivo e incompatível com a gestão eficiente do Estado. No entanto, o que ele ignora — ou prefere ignorar — é que esse salário não é um privilégio, e sim o resultado de plantões exaustivos, adicionais legais, e anos de estudo e especialização pagos com o próprio bolso.
Ao dizer que o servidor público é “treinado”, o governador demonstra uma visão rasa e desrespeitosa do funcionalismo. Servidor não é “treinado” como um cavalo da PM ou um cão do Corpo de Bombeiros — ele é capacitado, estudado, qualificado. O termo usado ofende justamente quem mais se doa: o profissional que, muitas vezes com sacrifício da própria vida, continua servindo o povo sem o devido reconhecimento.
É preciso lembrar que para chegar a um bom salário, o servidor precisa abrir mão de parte do próprio sustento para pagar cursos, pós-graduações, mestrados e formações contínuas. Tudo isso sem apoio do Estado, que sequer reconhece esse esforço.
A incoerência salta aos olhos quando comparamos esse discurso com outros privilégios mantidos pela mesma gestão: indenizações milionárias por férias acumuladas de alguns privilegiados continuam sendo pagas normalmente — valores que superam os R$ 500 mil em alguns casos — e o governo não vê problema algum nisso. A “eficiência com menos gastos” só parece valer para quem está na base, e não para quem goza dos benefícios do topo da hierarquia.
E pior: em 1º de junho de 2020, em plena pandemia, o próprio Mauro Mendes recomendou publicamente, conforme noticiou o Portal G1, que “as pessoas fiquem em casa”, e caso não fosse possível, que seguissem as orientações dos órgãos de saúde. Mas fica a pergunta, essa orientação servia também para as enfermeiras? Porque muitas delas não puderam ficar em casa. Estavam nas UTIs, nos hospitais de campanha, nos corredores superlotados, lutando contra o Coronavírus enquanto muitos políticos estavam isolados em seus gabinetes.
Quantas enfermeiras morreram, governador? Quantas mães, pais, filhas e filhos tombaram no trabalho enquanto o senhor agora questiona o salário que essas guerreiras recebem? O silêncio do Estado diante dessas mortes é o retrato da indiferença institucional.
Falar de “servidor treinado” e criticar o salário de quem salva vidas é desumano. É ignorar que, enquanto o senhor fazia recomendações seguras ao conforto do seu cargo, havia uma legião de profissionais da saúde doando o que tinham de mais valioso: sua vida.
A sociedade precisa refletir: que tipo de governo desvaloriza quem serve ao povo, mas protege os privilégios de quem manda? Até quando o discurso de “eficiência” será usado para penalizar quem trabalha duro e esconder os gastos milionários com quem ocupa cargos de poder?
O servidor público merece respeito — e a população merece um governo que reconheça a diferença entre privilégio e sacrifício.

















