O lobista mato-grossense Andreson de Oliveira Gonçalves, alvo da Operação Sisamnes, suspeito de chefiar um esquema de venda de decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ), adotou um método elaborado para ocultar suas comunicações: criou contatos falsos em seu telefone celular que usavam nomes de servidores do tribunal, mas que, na verdade, vinculavam-se a números de advogados. A estratégia foi identificada pela Polícia Federal (PF) em relatório parcial enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada.
As informações foram obtidas a partir da extração de dados da nuvem do celular do lobista, um dos novos elementos de prova colhidos na operação. A defesa de Andreson não se manifestou, argumentando que o caso está sob sigilo.
Conexão real e pagamentos milionários
Dentre os diversos contatos analisados, a PF constatou que um deles era genuíno: o salvo como “Márcio Gallotti” correspondia, de fato, ao servidor Márcio José Toledo Pinto, que trabalhou nos gabinetes das ministras Isabel Gallotti e Nancy Andrighi. As investigações apuraram que Andreson manteve diálogos com o assessor e lhe enviou comprovantes de depósito para uma empresa da esposa dele.
De acordo com a PF, o lobista pagou R$ 4 milhões a Márcio Pinto por meio desse esquema, em troca da obtenção de minutas (rascunhos) de decisões. A conclusão dos investigadores, baseada em diálogos e metadados de arquivos, é que minutas das ministras Gallotti e Andrighi foram manuseadas por Márcio no sistema do STJ.
Procurada, a ministra Nancy Andrighi emitiu nota informando que colocou seu gabinete à disposição para auxiliar nas apurações, “a fim de que o assunto seja esclarecido e os envolvidos punidos de forma exemplar”. Ela detalhou que Márcio Toledo Pinto, servidor concursado do STJ por 21 anos, foi sumariamente dispensado do gabinete em agosto de 2024, assim que os fatos vieram à tona, e posteriormente demitido pela corte em 2025, em processo administrativo disciplinar. A ministra Isabel Gallotti não se manifestou. A defesa de Márcio Pinto também não comentou o caso.
Contatos falsos e “venda de fumaça”
A situação se mostrou diferente com outros nomes de assessores encontrados no celular do lobista. A PF suspeita que Andreson usava esses contatos falsos para duas finalidades: dissimular tratativas ilícitas com servidores reais ou, simplesmente, para “vender influência” – ou seja, cobrar para intermediar decisões judiciais sem, de fato, ter o acesso que alegava.
Um dos exemplos é o contato salvo como Daimler Alberto de Campos, que era o chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti e é investigado no caso, tendo sido afastado do cargo temporariamente por decisão do STF. A PF descobriu, no entanto, que o número salvo sob esse nome pertencia, na realidade, a um advogado sem relação direta com o assessor do STJ.
A defesa de Daimler afirmou, em nota, que o nome do servidor foi usado indevidamente pelo lobista em uma “verdadeira venda de fumaça”. O advogado Bernardo Fenelon, que o representa, disse que a investigação não encontrou indícios contra seu cliente e que uma sindicância no STJ também afastou a existência de provas. “Após tantos meses de investigação, vemos apenas o óbvio: nenhum indício contra ele”, declarou.
Gabinete do ministro Og Fernandes também na mira
A análise da PF também identificou dois possíveis contatos falsos vinculados ao gabinete do ministro Og Fernandes. Um estava salvo como “Leo Gab Og”, mas pertencia a um advogado. Outro, com o sobrenome “Falcão”, era citado como possível referência ao ex-chefe de gabinete do ministro, Rodrigo Falcão, mas também correspondia a um advogado. Procurado, o ministro Og Fernandes não se manifestou.
A investigação chegou a apurar um vazamento de uma decisão sigilosa do ministro Og Fernandes na Operação Faroeste, que foi compartilhada pelo lobista Andreson. A hipótese inicial era de que o vazamento partira de Rodrigo Falcão. Contudo, a PF constatou que o arquivo da decisão já estava disponível em um site jornalístico, indicando que o lobista não teve acesso privilegiado naquele caso específico. Diante disso, a PF concluiu que não foi possível comprovar a hipótese inicial.
Estratégia de ocultação e novos passos
Para a Polícia Federal, o uso de nomes falsos é uma “estratégia recorrente em contextos de ocultação e dissimulação de ilícitos”. Em seu relatório, a PF descreveu que a análise das comunicações revelou “o uso sistemático de linguagem cifrada, codinomes, contatos fictícios e documentos mascarados”.
Por se tratar de um relatório parcial, a PF não realizou o indiciamento dos investigados, mas apresentou linhas de aprofundamento para a apuração. Diante das novas descobertas, a PF pediu autorização ao ministro relator do caso no STF, Cristiano Zanin, para expandir as investigações sobre esses fatos e desvendar a extensão da rede de ocultação montada pelo lobista.



















