A morte trágica da arquiteta e urbanista Larissa Pompermayer Ramos, de 29 anos, em Campo Novo do Parecis (MT), desencadeou uma investigação que expôs um suposto esquema de corrupção na gestão do Hospital Municipal Euclides Horst. A “Operação Silêncio Comprado”, deflagrada pela Polícia Civil nesta terça-feira (25), cumpre 20 ordens judiciais e lança luz sobre um problema que parece ser sistêmico na saúde pública de Mato Grosso, com ecos de má gestão e irregularidades em outras cidades do estado .
O Caso Campo Novo do Parecis: Da tragédia à corrupção
A investigação teve início após a repercussão da morte de Larissa Pompermayer, que sofreu complicações durante um parto cesáreo no Hospital Municipal. A família e moradores questionaram a estrutura da unidade, a prestação de serviços e a gestão de recursos humanos, levando à instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no ano passado. A “Operação Silêncio Comprado” apura uma suposta tentativa de interferência nos trabalhos dessa CPI, com denúncias encaminhadas pelo Ministério Público .
Entre os fatos investigados, há indícios de pagamentos por serviços não prestados, emissão de notas fiscais fraudulentas ou ideologicamente falsas, movimentação irregular de recursos públicos e possível desvio de valores relacionados à administração do hospital. A Polícia Civil aponta a prática de crimes contra a administração pública, como corrupção ativa, e busca reunir provas, identificar a extensão dos fatos e preservar o patrimônio público .
Os mandados judiciais, que incluem busca e apreensão, sequestro de bens, bloqueio de valores e quebras de sigilo, são cumpridos em Campo Novo do Parecis, Arenápolis e nas cidades paulistas de Barueri e Cotia, evidenciando a complexidade e o alcance do esquema .
Um Cenário preocupante em todo o Estado
O caso de Campo Novo do Parecis não é um incidente isolado, mas sim um reflexo de uma crise de gestão e suspeitas de corrupção que permeiam o setor da saúde em diversas regiões de Mato Grosso. A terceirização da gestão hospitalar, muitas vezes por Organizações Sociais de Saúde (OSS), tem sido um ponto nevrálgico para essas irregularidades:
•Hospital Regional de Cáceres: Servidores do Hospital Regional de Cáceres denunciaram ao SISMA-MT uma situação gravíssima após a terceirização da unidade por uma OSS. O Ministério Público acionou a Justiça cobrando medidas urgentes para regularizar o hospital, e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) chegou a suspender um edital da Secretaria de Estado de Saúde (SES) para a gestão da unidade, cujo valor estimado do contrato superava R$ 18 milhões por mês . O Hospital São Luiz, em Cáceres, é a quarta unidade de saúde que o Governo de Mato Grosso assume em menos de quatro anos, indicando uma dificuldade crônica na gestão .
•Hospital Municipal de Araputanga: Em março de 2026, foi apontada uma suposta corrupção e direcionamento em um contrato de R$ 15 milhões para a gestão do Hospital Municipal de Araputanga. A contratação emergencial, firmada pela prefeitura no início de 2026, teria sido direcionada, levantando sérias dúvidas sobre a lisura do processo .
Esses exemplos, somados à situação de Campo Novo do Parecis, desenham um panorama de fragilidade na gestão da saúde pública mato-grossense, onde a falta de transparência e a ausência de fiscalização rigorosa abrem portas para desvios e prejuízos milionários aos cofres públicos.
O Impacto na população e a necessidade de Fiscalização
O maior impacto dessas irregularidades recai sobre a população, que depende de um sistema de saúde eficiente e de qualidade. A morte de Larissa Pompermayer, que motivou a CPI e a subsequente operação policial, é um triste lembrete das consequências humanas da má gestão e da corrupção. Quando recursos destinados a serviços essenciais são desviados, a vida e a saúde dos cidadãos são diretamente comprometidas .
A atuação da Polícia Civil, do Ministério Público e do Tribunal de Contas do Estado é fundamental para coibir esses esquemas e garantir a responsabilização dos envolvidos. No entanto, a recorrência de casos em diferentes municípios do estado sugere a necessidade de uma revisão profunda nos modelos de gestão da saúde, especialmente aqueles que envolvem terceirização, e o fortalecimento dos mecanismos de controle e fiscalização para evitar que o “silêncio comprado” continue a custar vidas e o dinheiro do contribuinte .



















