ELEITO MAS SEM COMPROMISSO COM O POVO

Eleito, Mauro Mendes já fala em jornada de até 16 horas de trabalho e rejeita o fim da escala 6×1

Foto: Christiano Antonucci

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O ex-governador Mauro Mendes (União), eleito senador, fez a campanha ideal para seus interesses pessoais: 1) não participou de nenhum debate; 2) fez uma propaganda escapista, mostrando-se como super-herói de cinema; 3) não foi instado por um jornalismo de contundência sobre qualquer tema polêmico e 4) não precisou, portanto, se comprometer com nada e nem com ninguém, em especial com as trabalhadoras e trabalhadores de Mato Grosso.

Por isso mesmo, menos de 24 horas de ter sido eleito senador, Mendes ficou à vontade para mostrar a sua face do senador-patrão, sem nenhum compromisso com pautas sociais. Em reportagem de Laisa Stofel e Aparecido do Carmo, do site Gazeta Digital, o recém-eleito criticou o fim da escala de trabalho 6×1 e rechaçou propostas que considerou “precipitadas”. Ele também avaliou negativamente as normas trabalhistas brasileiras. Ou seja, Mauro Mendes é contra o fim da jornada 6×1, sugerindo que, na verdade, homens e mulheres têm que trabalhar ainda mais horas por dia.

O ex-governador Mauro Mendes é empresário. Ele tem empresas em diversos setores, principalmente mineração de ouro e construção, e comparou a rigidez da legislação nacional com a realidade enfrentada por brasileiros no exterior. As declarações foram feitas em entrevista coletiva, na tarde desta segunda-feira (5), quando se reuniu com representantes do PL e da coligação do União.

ESCRAVIDÃO LEGALIZADA

Segundo ele, milhares de trabalhadores optam por deixar o Brasil para atuar nos Estados Unidos em jornadas longas, mas com retornos financeiros considerados compensatórios. Ele defende que haja uma mudança na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) seguindo os moldes norte-americanos.

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“Porque lá nos Estados Unidos nós temos aí milhares e milhares e centenas de milhares de brasileiros que fogem daqui, entram clandestinamente nos Estados Unidos para trabalhar 12, 14, 16 horas por dia. Mas, no Brasil, se um trabalhador trabalhar 11 horas por dia, o patrão, a empresa, vai ser processado por trabalho escravo. Olha que absurdo”, criticou o senador. Traduzindo: o senador Mauro Mendes defende que a escravidão legalizada nos Estados Unidos seja o parâmetro para o Brasil. Para ele o “absurdo” é não deixar o patrão explorar o empregado ao máximo de horas trabalhadas por dia.

Para Mendes, o cenário atual exige uma reforma ampla voltada para um mundo moderno e conectado, em que a população dispõe de facilidade de acesso à informação. Em sua avaliação, o Estado não deve atuar com rigidez para tutelar as relações trabalhistas. Ou seja, no liberou geral, ganha o patrão que impõe suas condições, o trabalhador que se exploda, é pegar ou largar.

“Não precisa achar que o Estado tem que proteger todo mundo, que tem que criar leis rígidas para proteger o trabalhador. Tem que ter uma relação justa entre trabalho e capital”, concluiu, posicionando-se contra o fim da escala 6×1.

No melhor estilo senador-patrão, Mauro Mendes concluiu defendendo que o país amplie sua liberdade econômica para estimular o desenvolvimento e garantir maior autonomia produtiva e financeira aos próprios trabalhadores. Na enganação posta, sem vergonha, a autonomia dos trabalhadores é uma falácia. O sujeito é submetido às condições impostas pelos patrões, e ponto final. Mendes defende uma volta à escravidão legalizada, nos moldes dos Estados Unidos.

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EUA ESTÃO ENTRE OS PIORES NOS DIREITOS TRABALHISTAS

Pesquisa conduzida pelas universidades Harvard (EUA) e McGill (Canadá) aponta os EUA como um dos piores países do mundo em relação a direitos trabalhistas e políticas para a família, como licença-maternidade, auxílio-doença, férias e descanso semanal remunerados. Vários países têm benefícios que a maioria dos americanos nem sonham que existem.

Pela pesquisa, se percebe que a lei brasileira está em sintonia com a maioria dos países desenvolvidos. Apesar de não haver um ranking, a pesquisa aponta a Suíça, Finlândia e Suécia como os países em que os trabalhadores têm mais direitos.

AJUSTE FISCAL ÀS CUSTAS DOS SERVIDORES

As declarações de Mauro Mendes de defesa de uma espécie de escravidão legalizada nos moldes americanos não surpreendem. Ele nunca esteve preocupado com a ponta mais frágil das relações trabalhistas. É fato: como governador, Mauro Mendes fez um ajuste fiscal envolvendo rigor no controle de gastos com pessoal e impasses sobre a Revisão Geral Anual (RGA), além da taxação dos aposentados, gerando fortes críticas de sindicatos e embates políticos. O ajuste foi feito “nas costas do funcionalismo”, congelando ganhos reais e prejudicando o poder de compra e a economia local.

*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e Doutor em Comunicação pela UFMG.

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