Uma vendedora contratada em setembro deste ano relata ter sido vítima de assédio moral e discriminação por posicionamento político no ambiente de trabalho. Segundo ela, o episódio terminou em demissão no mesmo dia em que procurou a gerência para pedir o fim das provocações. A reportagem preservou a identidade da trabalhadora e das pessoas citadas, identificadas apenas por iniciais.
Do primeiro dia à demissão
De acordo com o relato, a vendedora foi contratada em 15 de setembro de 2026. Na loja, trabalhavam também duas outras vendedoras, identificadas como A. e D. Desde o início, os funcionários participavam diariamente de uma roda de oração antes do expediente.
Segundo a trabalhadora, a situação mudou em 25 de setembro, dia em que os funcionários podiam usar camiseta ou boné vendidos pela empresa no lugar do uniforme habitual. Ela conta que a líder da equipe, C., que também é gerente da loja, compareceu à roda de oração com camiseta e boné amarelos. Em determinado momento, o grupo passou a cantar músicas de teor político.
A vendedora afirma que permaneceu em silêncio, mas foi questionada sobre seu partido. Ela respondeu que política e religião não precisavam ser discutidas no trabalho e que a opinião de cada um deveria ser respeitada. Segundo o relato, C. reagiu dizendo que era por causa de pessoas como ela que o país estaria “havia três anos naquela miséria” e que, se outro partido vencesse, “todos estariam ferrados”.
“Você vai ajudar uma petista?”
Ainda naquela manhã, ao pedir orientação a D. sobre suas tarefas, por ser nova na empresa, a vendedora diz ter ouvido de A. a pergunta: “Você vai ajudar uma petista?”. Ela afirma que ficou constrangida e que, em nenhum momento, havia declarado sua posição política.
A trabalhadora também relata que, durante a mesma manhã, C. e A. ouviram a oração de um pastor que dizia que o diabo estaria no local “disfarçado de uma pessoa boa e educada”. Diante do contexto, ela diz ter se sentido ainda mais desconfortável.
Provocações chegam aos clientes
Nos dias seguintes, segundo o relato, as provocações continuaram. A vendedora afirma que A. passou a comentar o episódio com clientes da loja, e que alguns deles começaram a fazer comentários dirigidos a ela. Entre as frases que diz ter ouvido estão “Se o PT ganhar, você vai estar ferrada” e “Você vai perder seu trabalho”.
Ela também relata que diziam que ela “não era integrante do grupo”, enquanto pessoas ao redor riam. Na maior parte do tempo, segundo ela, permaneceu calada e tentou seguir trabalhando. A sexta-feira, 2 de outubro, foi descrita como especialmente difícil, com piadas, cantigas e comentários ao longo do dia.
A conversa e a demissão
Na segunda-feira, 5 de outubro, durante a roda de oração, a vendedora pediu a palavra à gerente e disse não estar mais suportando os deboches. Segundo ela, explicou que o problema havia ultrapassado o ambiente interno, já que clientes também faziam comentários após A. compartilhar informações sobre ela.
A conversa durou cerca de uma hora. Conforme o relato, as envolvidas negaram os fatos. A vendedora afirma ter defendido que pessoas podem ter opiniões políticas diferentes e que todos devem ser tratados com respeito, sem humilhação ou perseguição.
Por volta das 10h, ela foi chamada à sala da psicóloga da empresa, onde estavam também representantes do RH e a gerente. Foi então informada de sua demissão. Ela afirma ter percebido que a documentação já estava pronta.
Na ocasião, a vendedora disse acreditar que o desligamento estava ligado à situação política vivida na loja. Também pediu que as imagens das câmeras de segurança fossem analisadas, por entender que podem esclarecer parte dos episódios ocorridos em áreas monitoradas.
“Meu objetivo era trabalhar, aprender minhas funções e cumprir minhas responsabilidades”, afirma ela, que diz ter enfrentado deboches por uma posição política que lhe foi atribuída.
O que diz a lei
A Constituição Federal proíbe a discriminação por convicção política, e a Justiça do Trabalho costuma analisar casos de humilhação reiterada no ambiente profissional como possível assédio moral, que pode gerar indenização. Cabe ao Judiciário avaliar as provas, entre elas depoimentos de testemunhas e eventuais registros de câmeras.





















