Na época, Dilemário não economizou adjetivos: classificou a medida como um “ato covarde”, defendeu que a gratificação era "essencial para o sustento das famílias" e posou de paladino dos injustiçados.

O dilema de Dilemário: quando o defensor de ontem é o cúmplice de hoje

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Em setembro de 2023, a Câmara Municipal de Cuiabá foi palco de um espetáculo de defesa ferrenha dos servidores. No centro do palco, o então vereador de oposição Dilemário Alencar (Podemos), com a bandeira da justiça social em punho, disparava seus dardos retóricos contra o então prefeito Emanuel Pinheiro. O motivo? A retirada do adicional de insalubridade dos trabalhadores da saúde. Na época, Dilemário não economizou adjetivos: classificou a medida como um “ato covarde”, defendeu que a gratificação era “essencial para o sustento das famílias” e posou de paladino dos injustiçados.

Que cena memorável. Que vigor na defesa do funcionalismo.

Avancemos o filme para 2025. O cenário mudou, o elenco se rearranjou e o roteiro sofreu uma reviravolta digna de um romance político. Dilemário Alencar, outrora o gladiador da oposição, agora é o líder do prefeito Abílio Brunini na Câmara. E, como em um péssimo enredo onde o herói se transforma em vilão, a mesma medida que ele tanto condenou – o corte do adicional de insalubridade – está de volta. Desta vez, a canetada parte da gestão que ele sustenta, podendo impactar até 40% da categoria, sem aviso prévio ou aquele diálogo que ele mesmo parece ter esquecido de defender.

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E o que faz o nosso outrora inflamado defensor? O espetáculo acabou. As cortinas se fecharam. Dilemário, que antes usava o microfone como uma espada, agora encontra na arte do silêncio sua maior expressão política. O mesmo homem que denunciava o “desrespeito” agora assiste, calado e alinhado, ao que pode ser o maior desrespeito à sua própria narrativa recente.

A ironia aqui é mais cortante que qualquer discurso. O que era um “ato covarde” em 2023, em 2025 se tornou mera gestão eficiente? O sustento das famílias, outrora “essencial”, tornou-se uma despesa dispensável sob a nova tutela política?

A situação expõe mais do que uma simples mudança de lado; revela o “Dilemário” fundamental de certa política: a convicção que dura apenas até a próxima migalha de poder. O defensor incansável dos servidores evaporou-se, deixando no seu lugar a silhueta conveniente de um líder de governo, para quem as bandeiras de ontem são um incômodo menor perante os interesses de hoje.

Resta saber qual título ele prefere para este capítulo de sua carreira: pragmático ou incoerente? Enquanto isso, os servidores da saúde, mais uma vez, pagam o preço – não só pelo corte do benefício, mas pelo preço da desilusão com quem jurou defendê-los.

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